Reportagem literária produzida para a disciplina de "Jornalismo Literário".
Uma das reportagens mais difíceis que realizei. Alguns trabalhos como a reportagem sobre abrigos para pessoas em situação de rua em São Paulo, e a reportagem especial para rádio sobre imigrantes ilegais no Brasil, foram realmente marcantes na minha jornada pelo curso de jornalismo, que está chegando ao fim. Todas essas experiências contribuíram para formar a jornalista que posso dizer que sou hoje, faltando poucos meses para minha formação.
Os procedimentos para chegar às vezes em 2.000 caracteres, nesse tipo de pauta, geralmente são doloridos, não pelo trabalho de pesquisar, apurar dados, procurar fontes, e sim por ter que lidar com realidades que você, como ser humano, as vezes "esquece" que existem. Machuca, mas engrandece a alma e exerce sobre tudo a humildade e o saber.
SILENCIADAS
elas decidiram contar suas histórias
PREFÁCIO
O estupro é considerado um dos crimes mais
cruéis do mundo, perde apenas para o homicídio e, contraditoriamente, é o crime
mais silenciado da história. É o único crime em que a vítima é julgada junto
com seu agressor, não apenas pela sociedade, mas também pela própria justiça. Quando
há crimes de assédio e violência sexual geralmente é a mulher que é questionada
primeiro: com que roupa você estava? Você tinha bebido? Você ficou com ele?
Segundo dados do IPEA, 59% dos brasileiros
concordam que exista “mulheres para casar” e “mulheres para ficar”, 58%
acredita que se a mulher soubesse se comportar haveria menos estupros. Quando
entramos nas casas das vítimas, as estatísticas são ainda piores, 78% da
população brasileira acha que o que acontece entre casais em casa não interessa
aos outros e 63% pensa que violência doméstica deve ser discutida somente entre
membros da família. Dados do Ministério da Saúde concluem que 50% dos estupros
que acontecem no Brasil são de crianças de até 13 anos, destes, 68% são
cometidos por pessoas próximas, como familiares e amigos.
A vergonha e o medo dos questionamentos
impedem que as vítimas de violência sexual reportem o estupro e denunciem seus
agressores, o Anuário do Fórum Brasileiro de Segurança Pública registrou uma
média de 50 mil vítimas por ano, só no Brasil. Mas o Instituto de Pesquisa
Econômica Aplicada (IPEA) acredita que esse dado represente somente 10% dos
casos. Resultando em um número surpreendente de meio milhão de pessoas
estupradas todos os anos no país, onde 90% dos casos são omitidos. Isso
significa que os agressores continuam impunes e cometendo mais crimes do
gênero. E as vítimas, sem acompanhamento médico e psicológico, reprimidas e
envergonhadas, pois muitas acreditam que a culpa realmente foram delas.
Na elaboração desta reportagem, foi
assustadora a facilidade em encontrar vítimas de estupro, em se falando apenas
nas dispostas a falar. A maioria declarou que se sentiram, em algum momento,
culpadas pelo o que aconteceu. A maioria não contou para a família, e demorou
até terem coragem de contar a alguém de confiança, geralmente uma amiga. Não
reportaram a polícia por acreditar que seriam julgadas e/ou não iria resultar
na prisão do agressor. A única que viu seu agressor ser preso aguarda há dois
anos o julgamento.
Aqui, elas compartilharam os momentos de
pavor que viveram nas mãos de seus agressores, suas angústias entre se culpar e
serem julgadas. Elas acreditam que suas histórias possam criar mais empatia na
sociedade, e fazer ouvir seus silêncios que foram consumidos pelo desespero.
O
ÚLTIMO TREM
“Espero que esse trabalho possa chegar em
muitas mulheres e evitar que muitas pessoas passem por isso”. Foi assim que M.
começou o seu depoimento e a compartilhar tudo o que havia acontecido à ela
naquele dia. Os primeiros momentos de indignação, depois o desespero e a culpa.
A vontade de se fechar em si, a vergonha de contar. E se disserem que eu fui a
culpada? Todas as angústias que só quem passa por um estupro pode falar, se
falar, como é.
Era pra ser uma noite divertida, fazia frio,
mês de junho, o inverno batia na porta. M. tinha dezenove anos, nesta noite,
foi assistir uma peça de teatro com as amigas, ao fim do espetáculo, foram à
casa de uma delas na Vila Mariana, zona sul de São Paulo. Ali conversaram,
beberam cerveja e comeram alguns salgadinhos. Já era tarde quando ela percebeu
que precisava ir embora por causa da condução. Ela saiu às 23h40. Era dia útil,
e quando chegou ao metrô já não havia mais trens. Conseguiu pegar um ônibus até
a estação São Judas, de onde pegaria outro até o terminal Jabaquara, sua
estação de destino. Dentro do ônibus a caminho de sua primeira parada, encontra
um homem, um senhor de origem oriental, embriagado, porém simpático e os dois
acabaram conversando durante o percurso. Ao descer, M. se lembra das últimas
palavras daquele senhor, com olhos penetrantes disse à ela: “moça, se cuida
viu”. No ponto de ônibus, esperando o veículo que faria o trecho final até sua
casa, ligou pela última vez para sua tia, informando onde estava e avisando
que, se caso não houvesse mais ônibus àquela hora, ficaria dentro de um
restaurante 24h que havia ali perto até que as conduções voltassem a funcionar
pela manhã. Sozinha, quase de madrugada, ela se assusta com um grupo de rapazes
que aparentemente estavam se divertindo. Entraram no ônibus seguinte, que não
era o dela. Desse mesmo ônibus desce um
rapaz de boa aparência, polido e bem vestido. Após alguns minutos ele vai até
ela e pergunta sobre o ônibus, ela informa que também o esperava, pois era o
mesmo que iria pegar. Afastou-se. Fazia muito frio, o vento que trazia o sereno
da madrugada chegara e M. começou a ficar inquieta, considerando a possibilidade
de passar a noite dentro do restaurante. Já batia 1h da manhã, quando ela
decidiu esperar dentro do estabelecimento. O mesmo rapaz arrumado que estava no
ponto também foi para o local. Abordou-a novamente, perguntando se ela estava
com fome, ofereceu um suco e um lanche, em princípio ela recusou, começaram a
conversar e M. acabou tomando um pouco do suco dele. Em uma última tentativa de
ir para casa, ela volta ao ponto, onde alguns minutos depois seu ônibus
finalmente passa. “Que alívio!”. Pensou. Dentro do veículo estava aquele mesmo
rapaz, porém não conversaram. Ao descer no terminal Jabaquara, percebeu que
algo estava estranho, sua visão estava turva, não conseguia enxergar a hora no
relógio da avenida, sem equilíbrio nas pernas, sentou-se no banco do ponto.
Novamente, aquele jovem a abordou, pela terceira vez, com uma cerveja na mão,
perguntando se ela estava bem, “não estou bem, preciso ir pra casa” ela disse a
ele, que respondeu: “não vou te deixar assim, espera aqui”. Extremamente zonza
e sem conseguir levantar, M. ficou ali sentada, quando ele retornou com um copo
de água. Tudo o que houve após isto foi um apagão, uma mistura de reflexos das
ruas próximas, moradores de rua e o cheiro do qual ela se lembra bem. Despertou
no dia seguinte, nua. “Acordar e ver minhas roupas jogadas em um chão imundo
(...) me senti jogada, usada, suja (...) eu preferia a morte” relembra os
momentos de horror, sem saber onde estava e nem o que havia acontecido.
“Levantei procurei a minha bolsa, meu RG estava fora da minha carteira (...)
minhas coisas esparramadas”. M. estava em um quarto de motel, sozinha num chão
todo vomitado. Não se lembra muito bem como chegou em casa, ainda se sentia
pesada e a cabeça doía muito. “A primeira coisa que senti quando cheguei em
casa foi nojo (...) tomei banho com tudo o que você pode imaginar”. Ainda teve
febre, náuseas e vômitos durante aquele dia, fora as dores pelo corpo pois
estava toda machucada. “A segunda coisa que senti foi culpa, como pude ter dado
informação? Como pude beber algo de alguém que eu nem conheço?! (...) a
terceira foi raiva, como pode Deus ter permitido isso acontecer comigo?”. Foi
uma semana sem conseguir levantar da cama.
M. não conseguiu contar pra ninguém sobre o
que aconteceu. Foi à uma UBS (Unidade Básica de Saúde) marcar exames
ginecológicos, porém não contou aos médicos, não teve coragem, “me sentia suja,
o que iriam pensar de mim?” revelou. Foi à uma farmácia e comprou a pílula do
dia seguinte e alguns produtos de higiene íntima. Teve que ir ao hospital pouco
tempo depois, algo errado estava acontecendo com seu corpo. Foi identificada
com uma DST, felizmente tratável. Realizou também alguns exames de sangue, mas
sempre escondendo o fato de ser sido estuprada, “me arrependi de ter escondido,
eu poderia ter tido outras intervenções, como uma dose do coquetel da AIDS
(...) mas fui fraca, só queria que tudo passasse logo”. Todos os exames deram
negativo.
Quase dois anos depois, M. ainda pensa nos
momentos de desespero e no tempo que passou sem vontade de viver. A vergonha a
impediu de falar com a família, e até hoje nem seus pais, nem a sua avó, com
quem mora, sabem o que aconteceu. Em meio a sua luta interna M. conseguiu se
livrar dos pensamentos e sentimentos que a estavam levando para o fundo do
poço, “tirei da minha mente que era culpada”, confessa que o sentimento de
omissão é latente e que falar sobre o assunto ainda é muito difícil, “ainda
estou marcada, se sinto o cheiro dele passo mal o dia inteiro”. Ela conta ainda
que não consegue se lembrar do rosto do agressor, e que se lembra apenas de uma
aliança de casamento em seu dedo esquerdo. M. ainda não superou, e ninguém sabe
se um dia isso irá acontecer. Omissa e envergonhada, M. se calou, mas as
lembranças que gritam daquela noite de inverno de dois mil e treze nunca
deixarão de existir.
A
PÁGINA QUE NÃO FOI ESCRITA
Vinte de abril de dois mil e um. Uma data
marcada na memória e na carne de C. O dia que uma garota espera que seja o dia
mais perfeito, o dia que será guardado para o resto da vida em uma página do
seu diário e no seu coração.
A história de como C. perdeu a virgindade não
poderá ser contada para seu filho, nem para seu marido, nem pôde ser contada
para sua falecida mãe. Não poderá ser lembrada como um dia especial, este dia
que ela se lembra muito bem, mas na verdade, ela bem que queria não lembrar.
Hoje, com vinte e oito anos, casada e mãe de
um menino lindo, C. se recorda do dia em que foi estuprada por um conhecido. O
agressor então com vinte anos de idade, ela tinha treze. Como ela relata “foi
um presente de aniversário pra ele, ele dizia isso pra mim enquanto acontecia”.
C. mora na cidade de Suzano, na região do
Alto Tietê, nasceu, cresceu e vive na mesma casinha, construída pelo pai nos
fundos da casa da tia. Há quinze anos foi à casa de um conhecido com uma amiga,
no Itaim Paulista, ela já o havia visto algumas vezes nos encontros da turma. Neste
dia só estavam a amiga, o então namorado dela e seu cunhado, o conhecido. Era
aniversário dele. Todos assistiam filmes na sala. Em determinado momento, C.
foi convidada pelo cunhado da amiga a ir ao quarto, com o argumento de que era
para deixar o outro casal “mais a vontade”. No quarto, o primeiro beijo foi
consensual, mas as mãos e o entusiasmo do agressor a assustaram, “ai ele
trancou a porta, eu mandei abrir e ele não quis” relembra. A jovem de apenas
treze anos ainda gritou por ajuda, mas os amigos do lado de fora não ouviram,
ou fingiram não ouvir. Foi então que ele jogou a chave da porta em cima do
guarda-roupa e começou a tirar a roupa dela. Em estado de choque e com medo que
o rapaz a machucasse C. ficou imóvel. “Ele era forte, não tinha como eu sair,
fiquei sem reação nenhuma (...) assim que ele gozou pedi chorando pra que ele
abrisse a porta e ele abriu”.
Com ódio em suas palavras, C. se questiona o
porquê de não ter conseguido escapar do agressor “hoje a história talvez seria
outra mas, infelizmente, não tinha a cabeça que eu tenho hoje”. Ela nunca o
denunciou. Nunca mais o viu. Ficou sabendo por amigos que ele foi morar no
Paraná algum tempo depois do que aconteceu. Mas se lembra bem da personalidade
e das marcas que o agressor deixou em sua vida. “Ele era uma pessoa prepotente,
que queria ter até o que não podia (...) era rico, tinha uma casa enorme (...)
sempre tinha tudo o que queria não importava o que, onde, como, o importante
era conseguir”, fala como quem lembra o semblante de alguém presente.
C. nunca contou a ninguém, fingiu que não
havia acontecido nada, por medo do agressor, por medo de ser julgada pelos
amigos e pela família. Por vergonha. Mas C. se lembra e disse que nunca irá se
esquecer, do dia vinte de abril de dois mil e um.
UMA
NOITE DE HORROR NA CIDADE MARAVILHOSA
Tinha praia, tinha sol, tinha amigos e
cerveja. Tinha uma graduação quase no fim, tinha um TCC com tudo pra dar certo,
não havia mais nada que D. quisesse naquele momento. Tudo estava dando certo. Era
para ser um fim de semana memorável naquele lugar maravilhoso. E foi. Mas não
no sentido bom.
Setembro de dois mil e quinze, D. cursava seu
último ano da graduação em jornalismo, fazia seu TCC sobre mulheres que
produzem quadrinhos, a ideia era produzir um documentário. Entrevistou
profissionais na região sudeste do país, viajou entre São Paulo, Minas Gerais e
Rio de Janeiro. Com suas companheiras da faculdade, sua visita ao Rio corria
bem, conseguiu contatar suas fontes, fazer as entrevistas e ainda sobrou tempo
para ver alguns amigos que tinha na cidade.
D. conhecia dois rapazes cariocas, pela internet, conversavam há mais ou
menos seis anos, ambos amigos em comum de sua turma de São Paulo, onde ela
mora. No sábado foi à Bienal do Livro com um deles, ao final do evento, ele a
deixou na zona norte da cidade, onde D. havia combinado um encontro com seu
outro amigo virtual, para se conhecerem e tomar umas cervejas. Aproveitando a
noite carioca, ficaram bebendo em um local bem próximo à casa dele. Até então,
aparentemente um encontro com segundas intenções, ela estava confortável com a
situação, conversaram durante horas. Uma chuva ameaçando cair, fez com os dois
saíssem do local e D. concordou em ir para a casa dele. No caminho houve o
primeiro beijo, tudo indicava para uma noite divertida de sexo casual. Na casa
estavam sua mãe e a irmã. Já no quarto,
D. começou a perceber atitudes um pouco grosseiras, mas até então a estranheza
do rapaz, para ela, não havia indicado nada anormal. Até que, literalmente, ele
começou a machucá-la de verdade, “de repente ele ficou muito agressivo, começou
a me bater no rosto, no meu peito” relembra. Penetrando-a com muita força, ela
pedia para que ele parasse sem ser ouvida. Sabendo que a irmã e a mãe dele
estavam em casa ela o ameaçou: “eu disse que ia começar a gritar por socorro”. Foi então que ele simplesmente parou, virou
para o lado e dormiu. Atônita, sem saber muito o que pensar, D. fez o mesmo,
mas não dormiu. Esperou até amanhecer para sair logo daquele lugar. Pela manhã
não houve conversa, a mãe do rapaz bem receptiva, ofereceu um café da manhã,
mas o que ela mais queria era ir para casa. Ele ainda a acompanhou ao ponto de
ônibus para que ela chegasse até a rodoviária, sem olhar para o rosto do
agressor ela subiu no ônibus em silêncio absoluto. “Quando cheguei em São
Paulo, percebi que meu peito estava completamente roxo, ficou horrível” conta.
A relação que era basicamente pela internet,
foi como se nunca tivesse existido. Depois do que aconteceu, nunca mais se
falaram. No início D. se sentiu culpada, por ter confiado no agressor “sentia
que eu tinha provocado tudo aquilo (...) me senti vulgar”. Não o denunciou. Não
conseguiu contar para sua mãe, com quem tem um relacionamento muito próximo.
Contatou uma amiga e finalmente desabafou. Demorou até D. assimilar que o que
havia acontecido tinha sido, na verdade, um estupro. Quando a ficha caiu, ela
se sentiu extremamente mal, “é um sentimento que não desejo para ninguém”, ela
conta também que depois do que aconteceu, ficou muito desconfiada com homens,
“já acho que vão me machucar, que vão fazer a mesma coisa (...) hoje tenho um
pavor do casual, perdi aquela coisa sabe?” desabafa. Menos de um ano se passou,
D. hoje está formada, seu TCC foi um sucesso, mas as lembranças daquele dia na
cidade maravilhosa ainda vívidas em sua mente a transformaram em uma outra
mulher, amedrontada e marcada pela desconfiança.
O
INIMIGO MORA AO LADO
Morando com os pais e seus quatro irmãos na
Grande São Paulo, J. sempre foi uma moça que correu atrás dos seus objetivos.
Para ajudar em casa trabalhou em diversos lugares e nunca se importou de pegar
no pesado. No período entre o ano de dois mil e um e dois mil e treze,
trabalhava em uma drogaria, num sistema de escala que fazia seus horários de
entrada e saída do trabalho variar bastante. Foi numa manhã de domingo, por
volta das seis horas, a caminho para seu trabalho, que a vida de J. mudou
repentinamente. Permanentemente.
Fazendo seu percurso habitual, há apenas três
quadras de sua casa foi abordada por um homem, que em princípio anunciou um
assalto, já bem agressivo, pegou J. por trás, agarrando seu pescoço. Forçou-a á
sentar no ponto de ônibus e ordenou que entregasse seus pertences, ela
obedeceu, entregando a ele sua carteira e seu celular. Em seguida, a obrigou a
acompanhá-lo. Sem saber se o indivíduo estava armado e sob diversas ameaças de
morte, J. foi com ele até um terreno cercado por muros, ele então a fez pular
para dentro do local. “Dentro do terreno não se via nada além de muros e mato
muito alto”, com detalhes, J. se lembra das próximas horas que passou refém do
agressor. Obrigada a colocar as meias que usava nos pés dentro da boca e com a
blusa de moletom que estava amarrada em sua cintura sob seu rosto, J. foi
estuprada por cerca de uma hora. Com medo de morrer, não reagiu, tentando
manter o controle, ela esperou até não sentir mais o corpo do agressor sobre o
dela, então tirou a blusa que encobria seu rosto. Para sua surpresa, ele estava
sentado a sua frente, com os pertences que havia lhe roubado organizados em
fileira, friamente a observava. “Nesse momento veio um medo muito grande,
porque sabia que ele não iria me soltar, que eu não sairia viva dali”, em meio
a lágrimas, implorou para que ele a soltasse, ele negou. Momentos depois, ele
se reaproximou dela para continuar a violentando. Cansada daquela situação,
resolveu lutar pela sua vida. Ela então o chutou no peito fazendo com que ele
caísse para trás, “aproveitando esse espaço comecei a gritar por socorro o
máximo que consegui” relembra. Os dois então entraram em luta corporal, “ele me
enforcava o tempo todo e, em diversos momentos, senti meu corpo extremamente
mole e minha visão turva”, já sem forças para sustentar a defesa contra um
homem de cerca de 1,80 de altura, seus braços estavam cedendo e as mãos do
agressor ficando cada vez mais agarradas ao seu pescoço. Foi quando ouviram uma
voz vinda do alto do muro, eram três policiais que pularam imediatamente para
contê-lo com arma em punho. “Eu apenas agradecia a Deus, finalmente aquilo
havia acabado (...) senti uma alegria muito grande, pois naquele dia ganhei
mais uma chance de viver e rever as pessoas que eu amo” fala com sincera gratidão. Os policiais o tiraram do local e o
levaram para a delegacia, ela foi levada para a casa, “aí tive a tristeza de
ver meus pais ouvindo tudo aquilo dos policiais”, lamenta. No mesmo dia, foi
acompanhada dos pais à delegacia, onde prestou queixa e fez o reconhecimento do
agressor. Após, foi a um centro especializado na capital de São Paulo para
realizar exames e acompanhamento médico, “precisei tomar o coquetel da AIDS por
um mês, foi um período muito difícil, a medicação é extremamente forte e me
fazia passar mal o tempo inteiro”, conta.
Dois anos e oito meses se passaram desde
então, ela ainda aguarda o julgamento do agressor. Soube que ele morava a
poucos metros de sua casa, era casado, tinha duas filhas e estava em liberdade
condicional por roubo. A família dele mudou-se depois da prisão pelo crime de
estupro contra J.
Esse episódio triste em sua vida também é
visto por ela como sinônimo de superação. “Porque sobrevivi, porque não contraí
nenhuma doença, não parei minha vida, pelo contrário, hoje dou mais valor pra
tudo”, ela conclui, com seu jeito sempre alegre, como quem sabe que ainda há
muitas alegrias reservadas para se viver.

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