terça-feira, 25 de agosto de 2015

O hipnotista

Resenha literária produzida para a disciplina de jornalismo cultural. Juntando o útil ao agradável já que ler é uma das minhas atividades favoritas.





O hipnotista. KEPLER, Lars. Ed. Instrínseca. RS 39,90


Perigosa Psique

Quando um médico se dedica a cuidar da mente dos outros pode acabar entrando em um terreno obscuro e se difundir àquelas memórias escondidas. A hipnose torna-se perigosa quando seus pacientes já não sabem mais distinguir suas lembranças da própria realidade.                                                                                                    


Uma semana. É tempo suficiente para que a vida do psicanalista Erik Maria Bark mudasse radicalmente desde seu último atendimento. Há mais de dez anos sem praticar hipnose, ele se vê obrigado a retomar a técnica para descobrir pistas de um sangrento assassinato na cidade de Tumba na Suécia. Juntamente com o investigador Joona Linna, Erik acaba se envolvendo no caso que deixou uma família inteira morta de forma cruel e fria. Com apenas um sobrevivente à chacina, Josef Ek, o filho do casal vítima do ataque. Erik quer ajudar a polícia a encontrar o verdadeiro assassino e, para isso, hipnotiza o garoto de quinze anos de idade, ainda no hospital. A irmã mais velha de Josef, Evelyn, mora em outra cidade e a polícia acredita que ela pode estar correndo risco de vida, já que o alvo do criminoso, aparentemente, fora exterminar toda a família de uma vez. 

(p.29)"Sob a luz fria do saguão, Joona viu que os corpos ensanguentados tinham sido arrastados pelo chão. Gotas de sangue cobriam a chaminé de tijolos aparentes, a televisão, os armários da cozinha, o forno. Joona observou o caos: a mobília virada, a prataria espalhada, as pegadas e marcas de mão desesperadas. Quando parou em frente ao corpo mutilado da garotinha, lágrimas começaram a correr por seu rosto. Ainda assim, se obrigou a imaginar com exatidão o que havia acontecido: a violência e os gritos."

O que não se podia esperar no desenrolar da narrativa é que a história começaria a desconstruir as expectativas criadas no início em relação à autoria dos crimes. E recorrentemente os autores o fazem novamente. Assim, nunca sabemos o que ocorrerá adiante, tornando o livro extremamente intrigante. 

O inverno sueco retratado pelos autores ajuda a reforçar o clima de mistério que perdura por toda a narrativa. Paisagens inóspitas, montanhas e neve dão o cenário às investigações iniciadas pela polícia, mas que aos poucos envolve toda a família do psicanalista. Acontece que devido às suas antigas experiências com hipnose, ele acabou influenciando as vidas de seus antigos pacientes. Com a retomada, o hipnotista se vê cercado de mentes conturbadas e perigosas que querem se aproximar dele novamente.                                                                                                                                                                                                                                              

Freud explica

A abordagem psicológica torna-se interessante, pois parte dos protagonistas de distúrbios psicológicos são crianças e adolescentes. Relata uma realidade rebuscada de Freud, que fundamentou as fases da construção do EU em vivências da infância que ele acessava através da hipnose. Traumas de infância que dão origem a problemas psíquicos profundos na vida adulta são mostradas em O hipnotista através dos diálogos entre paciente e psicanalista, no caso Erik.  

Assim como Freud, as técnicas de seu tratamento com seus pacientes foram criticadas pela sociedade e principalmente pela mídia. Fazendo Erik abandonar a hipnose por mais de uma década.

Um extenso capítulo é destinado a contar as histórias individualmente dos pacientes de Erik, antes dele cessar a prática de hipnose. O psicanalista participou de uma pesquisa que ajudava vítimas de grandes traumas a se recuperarem psicologicamente através da técnica Freudiana. Um prato cheio para quem gosta de psicologia.

(p.94) " - Tudo bem, tudo bem - sussurra Kristina de forma tranquilizadora. Ela puxa a garota mais perto e acaricia sua cabeça. Mas de repente grita e empurra Evelyn para longe, direto no chão.
 - Maldição, ela me mordeu... Ela me mordeu, porra!

Kristina olha espantada para os dedos cobertos com sangue que escorre de um ferimento no meio do pescoço.

No chão, Evelyn esconde um sorriso perturbado com a mão. Então seus olhos reviram-se e ela fica inconsciente."


O romance policial do pseudônimo Lars Kepler (Alexander Ahndoril e Alexandra Coelho Ahndoril), ganha mais sangue em O hipnotista, o primeiro livro do casal sueco. Lançado em 2009 na Suécia, hoje está publicado em mais de 30 países. O segundo volume da série aborda o inspector Joona Linna e foi publicado em 2011 com o título de O Executor. Alexander Ahndoril, já possui outros títulos de sua autoria mas ambos foram premiados pela execução de O hipnotista.


Sem nunca perder o clima de suspense, a história vai se desenrola de forma pertinente, e que surpreende o leitor a cada capítulo. Os acontecimentos são movidos a tensão e medo. Em algumas passagens, um suave arrepio transcorre a espinha de quem lê. Aumentando a curiosidade de saber quem realmente fez o quê e, qual o grau de envolvimento dos personagens na trama, já que isso vai sendo revelado aos poucos.

(p.186)"Assim que entram no vestíbulo são atingidos pelo nauseante cheiro de sangue azedo. Durante um breve momento Simone sente o pânico aumentar em seu peito: o fedor é podre, doce, não muito diferente de excremento. Ela olha para Kennet. Ele não parece perturbado, apenas concentrado, os movimentos calculados com cuidado. Passam pela sala. Com o canto do olho, Simone tem uma visão das paredes e da lareira de pedra-sabão manchadas de sangue, o caos absoluto, o medo se erguendo do chão.

Ouvem um rangido em algum lugar dentro da casa. Kennet fica imóvel, saca calmamente sua antiga pistola de serviço, solta a trava de segurança e confere que está carregada. 

Ouvem mais alguma coisa: um barulho oscilante, pesado, arrastado. Não parecem passos. Parece alguém se arrastando lentamente."

Extremamente viciante. Você pode acabar com quatrocentas páginas em poucos dias, já que a história possui reviravoltas constantes, o que acaba "enganando" o leitor em vários momentos. Não é o tipo de livro que se mata a charada antes do final, o que deixa tudo mais intrigante. A descrição psicológica dos personagens ganha muito mais força neste suspense e faz com que o leitor se transporte para as sessões de hipnose junto com os pacientes e o próprio doutor Bark. As entrelinhas da psicologia e a dinâmica de um romance policial recheado de sangue e crueldade, nesta receita com certeza o casal Anhdoril acertou.